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Van Lede, Charles Maximilien Louis (1801 – 1875)

Van Lede Charles Mapa Santa Catarina 1842
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O personagem central da colonização belga em Santa Catarina é o belga Charles Maximilien Louis Van Lede (Bruges, 20/05/1801 – Bruges, 19/07/1875), para alguns, vilão, para outros, herói. Historiadores e pesquisadores ainda procuram por essa resposta.

Nascido em 1801 na cidade de Bruges, na Bélgica, Van Lede estudou em Paris na França -"les études préparatoires à l'Ecole polytechnique", algumas fontes mencionam que ele era engenheiro de minas. Ele partiu em 1822 para a Espanha onde prestou serviço militar, como soldado mercenário e terminou por se rebelar contra a tirania absoluta do rei Fernando VII. No seu certidão de óbito (disponível no arquivo da cidade de Bruges) consta que ele recebeu o "Commandeur de l'Ordre d'Isabelle la catholique". Da Espanha partiu para Mexico onde trabalhou para uma empresa inglesa e era engenheiro chefe das minas de Thalpuxahua. Fiz diversas viagens na America do Sul, entre outros em Chili onde foi promovido como diretor do departamento de Pontes e Vias. Pegou malária e deve voltar para a Bélgica.

Em uma carta publicada no Journal de Bruxelles de 7 de junho de 1850, Van Lede expliquou porque prestou serviço fora da Bélgica. 

Sob o pretexto de ter estudado na França e não na escola militar de Delft na Holanda, eu foi impedido de entrar no corpo militar de engenheiros da Bélgica. [Para sua informação, no período de 1815 a 1830, a Bélgica fazia parte do Reino Unido dos Países Baixos.] Isso me forçou a seguir carreira no exterior. Com a permissão do governo holandês, entrei ao serviço da República do Chile, onde ascendi a diretor de obras públicas. Ao que tudo indica, para grande satisfação do governo chileno, pois após uma ausência de vinte anos, voltou a insistir que eu assumisse seu antigo cargo, que ainda estava vago.

Depois de setembro de 1830, todos os oficiais belgas que estivem no exterior foram solicitados a se disponibilizarem para defender a nação recém-formada. Estranhamente, o diretor da guerra disse a mim que eu não poderia ser admitido porque não havia concluído a escola holandesa em Delft. De outro lado, outros arquitetos e engenheiros de pontes e estradas foram admitidos no corpo de engenheiros, embora eu fosse o único oficial superior “du génie”, com nacionalidade belga, que fiz campanha.

Em 1830, Van Lede tinha um papel inferior na luta para a independência da Bélgica. O livro "Les quatres journées de Bruxeles" par le Géneral Juan Van Halen (Bruxelas, 1831) contem nas paginas 139-158 o relatório de uma investigação feito no dia 23 de outubro de 1830 sobre o papel do general Van Halen em servício do estado belga. O general mencionou que M. Van Lede "Officier du génie" viajou com ele para Bruges, onde foi hospedado na casa de Van Lede, e o dia seguinte à Oostende. No mesmo livro aparece também Joseph Denis Isler, negociante domiciliado em Antuérpia, que futuramente vai migrar para a colônia belga fundada por Van Lede em 1844 em Ilhota-SC. Seus amigos o oferecem um emprego no exercito belga que refusou.

Junto como seu irmão Louis, consul de Brasil em Bruges, criou em 1836 a Societé Commercial de Bruges que se especializou no comércio com o Brasil de onde importaram café. A partir de 1840 a Sociéte tinha um sede no Rio de Janeiro. No fim de 1841, já a serviço da Société e fundador da Société [e futura Compagnie] belge-brésilienne de Colonisation, Van Lede partiu para o Brasil. A sua missão era avaliar o solo e as florestas catarinenses para a exploração de ferro, carvão e outros minérios. Van Lede, o belga Joseph Philippe Fontaine, o geólogo francês Guilherme Bouliech, e o guia, o escrivão policial José Alves de Almeida, foram os primeiros a realizar uma viagem de cunho científico à parte navegável do Itajaí-Açu. Van Lede desenhou um mapa detalhado da então província de Santa Catarina, parte da província de São Paulo e de Rio Grande do Sul e parte da república do Paraguai que, em 1842, foi impressa em Bruxelas.

Mapa de Santa Catarina desenhado por Charles Van Lede

Livro de Charles Van LedePublicou também alguns livros, entre outros, "De la colonisation au Brésil", publicado em Bruxelas em 1843.

O Sr. Van Lede é um dos escriptores estrangeiros que mais nos honra pela sua delicadeza e urbanidade, e pela preciosa collecção de documentos e reflexões históricas, geographicas e estatisticas, que pôde alcançar, viajando na provincia que tão sabiamente descreve. A sua obra, feitas algumas pequenas correcções em pontos históricos, e em nomes de alguns lugares e rios que talvez escapassem na revisão typographica, é digna da estimação e estudo dos Brazileiros.
Relatório do Instituto Histórico e Geographico do Brazil de 10.12.1843.

Na viagem, alimentou a ideia de um grande projeto colonizador, com a finalidade de explorar as prováveis jazidas existentes em Santa Catarina.

Em 10 de agosto de 1842, foi assinado um contrato provisório de colonização entre o Governo Imperial Brasileiro e a Compagnie belge-brésilienne de Colonisation, que nunca seria ratificado pelo Parlamento Brasileiro.

O jornal Diário do Rio de Janeiro (RJ) de 16.8.1842 menciona que o bremense J. Denis Isler e os belgas José Philippe Fontaine, Jules De Laveleye e Charles Van Lede, saíram no dia 14 com o paquete inglês Penguin com rumo a Falmouth, Cornualha, Inglaterra. Jules De Laveleye (1822 - 1890), vice-cônsul do Brasil em Gent (Bélgica) era filho de Ivon-Benoît de Laveleye e Julie Van Lede. A última provavelmente parente de Charles Van Lede.

Após adaptações ao projeto e com dificuldades de ganhar terras – uma nova lei interditou a doação de terras públicas - Van Lede (a necrologia no jornal de Bruges informe também seu irmão Louis) e os irmãos Lebon, adquiriram, terras no Vale da Itajaí-Açu. Em 21 de novembro de 1844, a área de 1.200 ha de Dona Rita Luisa Aranha, em 2 de janeiro de 1845, compraram terras do tenente coronel Henrique Flôres, uma área de 2.150 ha e uma floresta por desbravar de 4.100 ha que seria batizada Ilhota, e em 6 de julho de 1846, uma área de 2.150 ha do Padre Rodrigues, no local chamado Prainha. Van Lede obteve da Assembleia Geral Legislativa a isenção de direitos alfandegários para objetos trazidos pelos colonos belgas para o desenvolvimento da colônia.

Mas antes da realização dessas compras, o primeiro grupo de belgas já estava viajando de Oostende na Bélgica onde saíram no dia 23 de agosto de 1844 para Ilhota (SC) contratados por Van Lede. Van Lede permaneceu pouco tempo na colônia belga.

Casa de Ch. Van Lede - Kleine St.-Amandstraat em Bruges

Casa de Charles Van Lede - Kleine St.-Amandstraat - Bruges

Retornou à Bélgica em outubro de 1845, deixando a colônia sob a direção de Joseph Philippe Fontaine, e nunca mais voltou. Na Bélgica, tentou sem sucesso ser eleito nas eleições de 1848 para a Câmara belga, mas conseguiu, em 12 de julho de 1848, o posto de conselheiro provincial de Flandres Ocidental para a região de Bruges pelo partido liberal. Esteve muito ativo como conselheiro, especiamento no assunto "Question des Flandres", um debate sobre soluções para a crise populacional. Em 1852, por causa da sua instabilidade política, era chamado de traidor da causa liberal, e por isso não pode se candidatar para as eleições. 

Van Lede faleceu em 1875, deixando suas casas em Bruxelas e suas terras no Brasil como doação à "Commissie van Burgerlijke Godshuizen" (CBG), uma instituição civil que cuidou dos pobres, da sua cidade natal, Bruges. Ele foi sepultado na igreja Sint-Gudele em Bruxelas.

Baseado em diferentes fontes, entre outros

  • Necrologie Charles Van Lede, Journal de Bruges, 21.7.1875, p. 2, 
  • volume 6 p. 554-556 do livro "Nationaal Biografisch Woordenboek"
  • p. 606 - 607 livro "De provincieraad van West-Vlaanderen 1836-1921 / Luc Schepens. - Tielt: Lannoo, 1976."