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Andrigo, Victor Désiré Clément (1869-1950)

Assinatura de Victor Andrigo
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Vida na Bélgica

O dossiê "Pers 518" guardado no arquivo do Ministério das Relações Exteriores da Bélgica em Bruxelas contém uma carta escrito no dia 16 de outubro de 1902 de São Paulo ao "le Baron de Favereau, Ministre des Affaires Etrangères à Bruxelles". Nela Victor Désiré Clément Andrigo informou que nasceu em Schaerbeek, 24 de agosto de 1869, com filho de Désiré Joseph Andrigo e de Anna Maria Vandermasten. O seu pai trabalhou durante 35 anos para a rede ferroviária do Estado belga e faleceu em 1893. Sua mãe e irmão vivem, respectivamente, na 24 e 33 rue de la Pépinnière, Bruxelas.

Victor se matriculou na cidade de Liège para o curso de géomètre-arpenteur (agrimensor) em 1889 e no ano seguinte na École des Arts e manufactures et des mines (Escola de Artes, Manufaturas e Minas). Na sua turma se matricularam também dois brasileiros de São Paulo: H. Correa e J. César. (fonte: jornal La Meuse 18.10.1890).

Ele abandonou o curso de engenheiro para fazer arquitetura na "Académie des Beaux Arts". Era aluno do famoso arquiteto belga de Art Nouveau Paul Hankar. Infelizmente a carta não menciona em qual cidade ele estudou arquitetura. As cidades de Liège e Bruxelas tinham na época uma "Académie des Beaux Arts". Hankar era professor na escola de artes e ofícios em Schaerbeek. A polícia de Bruxelas informou que Victor, arquiteto, celibatário, venho de Liège, no dia 18 de janeiro de 1893 com a sua família. Assim, é bem provável que ele estudou no ano 1893 em Schaerbeek com Hankar.

Ele trabalhou durante dois anos como arquiteto em Bruxelas, antes de ser convidado por seus "compagnons d’études", em particular H. Correa, para se migrar ao Brasil.

Vida no Brasil

Commissão Technica de Melhoramentos da Intendência de Obras do Município de S. PauloVictor Andrigo chegou em outubro de 1896 em São Paulo. No ano seguinte trabalhou como arquiteto para a "Commissão Technica de Melhoramentos da Intendência de Obras do Município de S. Paulo", onde outro belga, o arquiteto Florimond Colpaert foi auxiliar técnico. Em 10 de janeiro 1898 a comissão técnica foi dissolvida.

Foi naturalizado brasileiro em 1898, o que lhe permitiu aplicar por postos oficiais. Andrigo foi renumerado engenheiro de 2a classe da "Superintendendência de Obras Públicas" do Estado de São Paulo (órgão criado em 1889), de no mínimo entre os anos 1898 e 1901. Lá trabalhou também o engenheiro-arquiteto belga José Van Humbeeck (contratado em 1896) quem projetou dezenas de escolas públicas no Estado de São Paulo.

Como arquiteto da Superintendência foi responsável por projetar o 1º prédio do Butantan (na época denominado Instituto Serumtherapico de São Paulo), concluído em 1901: a antiga Cocheira-enfermaria para animais (cavalos) imunizados para produção de soros (antipestoso e antiofídico).

No mesmo ano, 1901, deu-se o começo da edificação do Hospital Colônia do Guapira, no bairro do Jaçanã (SP), hoje Hospital São Luiz Gonzaga, com plano organizado pelo Engº e Arquiteto Dr. Victor Andrigo. O edifício foi finalizado por Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo e inaugurado em 04 de setembro de 1904.

Victor Andrigo casou-se no dia 26 de janeiro de 1901, em São Paulo, com Antonia Corrêa Galvão. É curioso que, na certidão de casamento, a idade de Victor consta como 24 anos. No entanto, os nomes de seu pai e mãe estão corretos e correspondem aos do seu passaporte. 

Herculano de Almeida Corrêa, testemunha do casamento, era parente da sua esposa. Herculano, nascido em 1872, foi enviado pelo seu pai para estudar na Bélgica onde formou-se na Hautes Études Commerciales em Liège, informa o site https://serieavenidapaulista.com.br/2019/06/12/o-casarao-dos-correa-galvao-parte-1-o-barao/ Informação equivocada porque a HEC só foi fundada em 1898. De outro lado há provas que ele se matriculou em 1890 na Escola de Artes, Manufaturas e Minas de Liège (jornal La Meuse de 18.10.1890) onde se formou em 1897 (jornal La Meuse 29.10.1897).

O pai de Herculano, Antônio Augusto Corrêa, era proprietário de fazendas cafeeiras na região de Itu, que foram vendidas em 1898. A família mudou-se para São Paulo em 1900 e foi morar na Praça da República. Com projeto de Carlos Ekman, arquiteto sueca, a construção da casa da Avenida Paulista começou em 1892 e ficou pronta em 1897, poucos anos após a inauguração da avenida. Os pais da esposa de Victor, Arsenio Corrêa Galvão e de Anna Candida de Almeida Corrêa, moravam também num casarão na Avenida Paulista esquina Alameda Joaquim Eugênio de Lima.

Em 24 de outubro de 1901 nasceu a filha Leticia Andrigo.

"Em 26 de fevereiro de 1902, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou a abertura, na prefeitura, das propostas para a pavimentação da Avenida Tiradentes, no trecho entre as ruas Ribeiro de Lima e Márquez de Três Rios. Mencionam-se cinco licitantes, entre eles Victor Andrigo. Presença que atesta seu interesse na execução de obras de infraestrutura urbana." informação recebida do pesquisador em Art Nouveau, o belga Jonathan Mangelinckx.

É desconhecido quais outros edifícios da sua autoria foram executados. Sabemos pelos jornais da época que plantas apresentadas pelo V. Andrigo na Diretoria de Obras da cidade de São Paulo foram aprovadas em 28.05.1902, 15.01.1903 e também em 06.10.1906.

Era nomeado cônsul da Bélgica na cidade de São Paulo entre 1904-1919. Na prática ficou menos tempo no posto. Durante sua viagem em 1907 à Europa, Arsène Puttemans foi nomeado como gerente do consulado belga. Em 3 de Março de 1909 Andrigo relatou, em carta ao Ministro das Relações Exteriores da Bélgica, a necessidade de solicitar uma licença por motivos de saúde e expõe as dificuldades de gerir o consulado. O encargo exige tempo e recursos financeiros substanciais, complicados pelo elevado custo de vida no Brasil. Propõe que a Bélgica passe a enviar um consul de carreira ligado ao Ministério e coloca o seu cargo à disposição caso essa transição seja adotada. Devido ao agravamento da sua saúde, solicitou, em 4 de Junho de 1912, uma licença temporária sem data fixa de regresso, dependente de avaliação médica na Europa. Desde Lausana (Suíça), preparou seu regresso em 25 de Fevereiro de 1918 ao Brasil via Itália (Génova) ou Espanha (Bilbao). Colocou-se à disposição do Governo belga para missões confidenciais ou para colaborar na reorganização do comércio externo no pós-guerra. Em carta de 15 de Julho de 1919 ao ministro, explicou que a sua ausência prolongada da jurisdição consular se ficou a dever à eclosão da Primeira Guerra Mundial, tendo ficado retido com a família nas Ardenas sob ocupação alemã. Após conseguir autorização para ir para a Suíça, enfrentou internamentos e complicações graves de saúde da esposa e do filho. A sua esposa Antonia faleceu no dia 7 de dezembro de 1920 em Lausane. 

Andrigo foi também importador de produtos belgas. Os jornais Commercio Paulistano e A Tribuna (SP) informaram que ele importava caixas de vidros e cristais e chapas de aço desde o porto de Antuérpia. 

Os registros da Companhia Paulista identificam Victor Andrigo como titular de ações em 1934 e novamente em registro posterior do ano 1940. O número de ações atribuído a seu nome aumenta de 100 para 136. Esses registros constituem uma evidência relevante para a investigação de sua trajetória após 1914 no Brasil. Houve dois outros Andrigos que possuem ações: a sua filha Leticia Andrigo Almeida Prado 14 ações em 1934 e 3 em 1940 e seu filho Werner Andrigo de Almeida com 178 ações em 1940. A data de nascimento do Werner é desconhecido.

O site FamilySearch informa que Victor faleceu em Bruxelas no dia 18 de junho de 1950. Data a ser confirmada.

Questões em aberto

  • Onde exatamente Victor Andrigo estudou arquitetura?
  • Qual foi a natureza de sua relação com Paul Hankar?
  • Quais foram os demais projetos arquitetônicos realizados por Andrigo em São Paulo?
  • Qual foi sua participação efetiva na construção do Hospital Colônia do Guapira?
  • Em que momento deixou definitivamente o cargo de cônsul da Bélgica?
  • Onde viveu entre 1919 e seu falecimento em 1950?
  • Quando retornou à Bélgica?

Fontes

  • A representação da cidade de São Paulo nos albores do século XX. Os mapas como operadores na construção da cidade espraiada / Eliane Kuvansney. - USP, 2017.
  • Guides des sources de l'histoire d'Amérique Latine conservées en Belgique (1967)
  • Gazeta de Notícias (RdJ) 16.06.1898.
  • Jornal "O Commercio de São Paulo" de 16.01.1901.
  • História dos 110 anos Hospital São Luiz Gonzaga 1904-2014 / Maria Nazarete de Barros Andrade.
  • Email dd 17.01.2020 do arquiteto Sergio de Simone, Centro de Memória, Butantan - USP.
  • Pesquisa dia 03.02.2020 no arquivo Ministério das Relações Exteriores da Bélgica em Bruxelas.
  • Processo de naturalização BR RJANRIO A9.0.PNE.29728 de 08.06.1898.
  • Pesquisa na Coleção São Paulo da Biblioteca Mario de Andrade com a ajuda da bibliotecária Virginia.
  • https://serieavenidapaulista.com.br/2019/06/12/o-casarao-dos-correa-galvao-parte-1-o-barao/
  • Descendentes do Tenente Fernando Paes de Barros / Frederico de Barros Brotero. São Paulo, 1956. p. 261-262. 
     
  • Os jornais mencionados no texto.
Projetos do engenheiro Victor Andrigo na Superintendência das Obras Públicas (SP)

A Mapoteca da seção cartográfica do Arquivo Público do Estado de São Paulo guarda diferentes registros da atuação profissional do Victor Andrigo. Andrigo foi contratado em 1898 pela Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. A data da sua saída da Superintendência de Obras Públicas ainda está desconhecida. A Mapoteca não contém projetos dele datados depois do ano 1900, que sugeriu que ele pediu afastamento do cargo em 1901. 

Os registros permitem ir além de uma simples lista de plantas: é possível identificar tipos de obras, municípios atendidos, cronologia, colaboração com outros engenheiros e procedimentos de elaboração dos projetos. 

O que os registros revelam sobre Victor Andrigo 

A planilha do Setor Iconográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo contém 26 registros relativos a projetos ou intervenções atribuídos a Victor Andrigo, abrangendo o período de 1898 a 1900. O dado mais importante é que o conjunto documenta uma atuação bastante diversificada. Andrigo trabalhou em cadeias públicas, instalações escolares, equipamentos sanitários, obras de apoio a instituições científicas e intervenções em espaços públicos da capital. Os 26 registros são de 14 projetos ou conjuntos documentais 

A documentação permite sustentar que Andrigo participou ativamente da produção técnica da Superintendência de Obras Públicas. Entretanto, não seria correto interpretar os 14 projetos como edifícios projetados integralmente por ele: muitos dizem respeito a obras complementares, adaptações, reparos ou desenhos de uma mesma intervenção. 

Três grandes campos de atuação. 

A. Cadeias públicas e penitenciária 

São 9 registros de cadeias públicas e penitenciária. Inclui a cadeia e a casa de câmara de Rio Claro, a consolidação da cadeia de Casa Branca, o projeto de cadeia de Pereiras, a cadeia de Lavrinhas e a cadeia de Guareí. Há ainda o orçamento de reparos da Penitenciária da Capital. 

Na virada do século XIX para o século XX, os projetos de construção de cadeias, fóruns e repartições públicas no Estado de São Paulo eram centralizados e desenhados pela Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas (SACOP) ou pela Secretaria de Justiça. Muitas das cadeias de pequeno e médio porte do interior seguiam plantas padronizadas (conhecidas na época como "plantas-tipo") desenhadas por engenheiros do Estado para abrigar um destacamento policial e algumas celas (xadrezes). 

Andrigo atuava tanto na concepção de edifícios destinados à segurança pública quanto na recuperação de construções existentes. A variedade de desenhos — plantas, fachadas, cortes e orçamentos — permite investigar sua participação nas diferentes etapas do trabalho. 

B. Instalações escolares e obras complementares 

São 10 registros de quatro conjuntos principais: Campinas, Amparo, Mogi Mirim e Araraquara. 

  • Campinas: pavilhão para latrinas e mictórios e transformação de duas salas em uma única sala de aula. 

  • Amparo: muros de fechamento do terreno e muro do recreio. 

  • Mogi Mirim: muros e obras de calçamento no terreno do grupo escolar. 

  • Araraquara: grade na fachada principal, pavilhão sanitário e muro de fechamento. 

Esses documentos revelam o trabalho necessário para tornar os edifícios escolares plenamente funcionais. Andrigo não aparece aqui apenas como projetista, mas como profissional envolvido na infraestrutura dos estabelecimentos de ensino. 

C. Equipamentos científicos, militares e espaços públicos 

Os 7 registros incluírem a cocheira-enfermaria do Instituto Seroterápico, no Butantan, um pavilhão de latrinas e mictórios para o Quartel do 3.º Batalhão, o aumento de um coreto no Jardim do Palácio e o estudo de implantação do novo teatro na área do Largo Dr. João Mendes. 

Andrigo participou de obras especializadas, destinadas a instituições científicas e militares, e também de intervenções em espaços públicos da capital.