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van Langendonck, Marie Barbe Antoinette Rutgeerts (1798 - 1875)

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Marie Barbe Antoinette Rutgeerts van Langendonck nasceu em sete de outubro de 1798, em Antuérpia (Bélgica). No ano de 1827 casou-se em sua cidade natal com Jean Remi Félicien Philippe van Langendonck, oficial do Régiment de Guide e diretor do Hospital Militar de Charleroi. Uma ilustre dama, educada segundo os moldes europeus, poetisa e escritora, com várias obras publicadas, entre elas, Aubepines (1841) e Heures poétiques (1846).

Atraídos pelos engodos da campanha colonialista, muitos europeus emigraram para o Brasil, entre os quais, os filhos de Marie van Langendonck. Eles saíram de Antuérpia engajados no projeto do vice-cônsul da França, Conde de Montravel, a Colônia Harmonia, no Rio Grande do Sul, com o intuito de enriquecerem. Tratava-se de grande propriedade que a sociedade de Montravel alugava para ali instalar, provisoriamente, seus escritórios e para oferecer pouso aos colonos chegados da Europa. A Sociedade Montravel, Silveira e Cia., fundada em 1855, assumiu o compromisso de introduzir na Província do Rio Grande do Sul 1.440 colonos, mediante um adiantamento de 15 mil réis por colono, conforme tivesse esse mais ou menos de 12 anos de idade, além de um empréstimo de 57 contos de réis. A colônia foi autorizada como empreendimento particular pelo governo imperial em 1855.

Em 30 de abril de 1857, então viúva, Mme. van Langendonck deixou a vida confortável que levava na Bélgica e embarcou no brigue Amanda, com destino ao porto de Rio Grande, no Brasil. No dia nove de julho chegou ao porto e ficou aproximadamente dez dias em Porto Alegre, seguiu depois para a Colônia Harmonia. Por fim, Marie estabeleceuse em Santa Maria de Soledade, território que corresponde às atuais São Vendelino, Harmonia e alguns distritos de Carlos Barbosa, como Santa Clara Baixa, onde seus filhos a esperavam. O filho Leon trabalhava como agrimensor da companhia Montravel para demarcar as terras. 

VanLangendonck Une Colonie au BrésilSua aventura nas florestas do Rio Grande do Sul originou uma narrativa muito viva e colorida que publicou na Bélgica em 1862, sob o título de Une colonie au Brésil: récits historiques, publicado em Antuérpia pela editora L. Gerrits. O livro foi traduzido e editado em Campinas mais de 100 anos depois, em 1990. Teve duas reedições, uma em 2002, pela Editora Mulheres, de Florianópolis, e outra, em 2008, na Bélgica, que teve por base a versão original, pela Editions Biliki. 

O relato de Mme. van Langendonck incluiu os percalços da viagem no navio de emigrantes que a trouxe, descrevendo a sua experiência como colona, suas tentativas de estabelecer-se em uma região agrícola, com desmatamento, plantações de milho e feijão, e o enfrentamento de todos os perigos de uma região isolada e ainda selvagem.

Esse diário mostra a situação, na época, em alguns países europeus cuja miséria obrigava o povo a tentar a sorte na América. Segundo o editor belga, a republicação do livro Pourquoi avons-nous décidé de publier un tel livre? prende-se a razões variadas:

Porque a Bélgica parece querer ocultar eternamente este período sombrio: impostos escandalosos, miséria dos mais pobres, etc.; porque se trata do olhar de uma mulher (e é muito raro lerem-se relatos históricos de mulheres) mesmo tão burguesa; porque a região do Rio Grande do Sul é desconhecida dos Europeus; porque, segundo a descrição de Mme Van Langendonck, são boat-people repletos de alemães e de belgas muito pobres que fugiam da Europa, esperando uma vida melhor no Brasil, e a quem o Estado belga vendia imagens paradisíacas [...] um fato consabido, ainda hoje, em numerosos países.

Decorridos dois anos no Rio Grande do Sul, voltou à Bélgica, mas em 1863, movida pela saudade dos filhos e do país, retornou ao Brasil. Continuou no país, precisamente no Rio Grande do Sul, até falecer em 1875, no município de Arroio Grande.

Alguns fatores foram fundamentais para a vinda de Marie para o Brasil, entre os quais eram a crise econômica europeia e a morte do marido. A possibilidade de erguer-se financeiramente em uma colônia de terras férteis no Brasil foi associada a uma aspiração antiga, uma vez que, para ela o que a atraia ao Brasil, um país desconhecido, era, além da necessidade financeira, o desejo intenso de ver uma floresta virgem, de estar em contato com a natureza intocada, tão viva em relatos de viajantes no decorrer dos séculos, o que já não era possível encontrar no Velho Mundo.

VanLangendonck Une Colonie au BrésilPoetisa publicada e escritora de livros de viagens, cronista da política e dos costumes em uma época em que tudo isso era exceção para uma mulher, Madame van Langendonck é uma raridade. Uma intelectual no mato - com a enxada em punho e uma onça como bichinho de estimação. Durante o dia trabalhava na roça, espantava as cobras e, à noite, fazia suas leituras. Quando saía da colônia era recebida como uma senhora da alta sociedade nos salões da capital da Província, Porto Alegre, ou na capital do Império. Antes de deixar o Brasil visitou Dom Pedro II, ao qual relatou suas impressões sobre a região colonial. O Museu Imperial de Petrópolis possui em seu acervo as cartas enviadas por Madame ao Imperador e à Dona Teresa Cristina.

Escreve Juliano Fontanive Dupont "Essa mulher, não apenas letrada, mas culta, é lembrada porque escreveu um livro. A história entre seu retorno até sua morte em 1875, e de seus descendentes que ficaram no Brasil, está para ser descoberta, pois esta história Madame não escreveu."

Conde Montravel não conseguiu trazer o número de colonos estipulado no contrato, e tentou vender os lotes a colonos alemães, holandeses e belgas, mas o projeto gorou. Com o fracasso de Santa Maria da Soledade, as terras são devolvidas ao Governo Imperial e, na sequência, reivindicadas pelo governo provincial a fim de dar continuidade à colonização. 

Fontes:
  • Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 50, n. 4, p. 452-462, out.-dez. 2015
  • Estudos Feministas, Florianópolis, 16 (3): 1061-1071, setembro-dezembro 2008
  • Juliano Fontanive Dupont