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Reichert Mathieu-André (1830 - 1880)

Reichert Mathieu Andre
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Mathieu-André Reichert foi um flautista virtuoso e também compositor. Era influenciado pela e influenciou a música brasileira.

Filho de músicos belgas nômades, Reichert nasceu em 1830 em Maastricht (Holanda) e começou a tocar nos cafés no início da infância, logo se tornando um profissional. Foi descoberto num botequim de Bruxelas e levado pelos professores Jules Demeur e François-Joseph Fétis para o Conservatório de Bruxelas. Aos 17 anos ganhou o primeiro prêmio do Conservatório e foi contratado como músico da corte belga. Ao mesmo tempo, ele se tornou um flautista de concerto e teve uma carreira internacional, tocando na Europa e nos Estados Unidos.

Em 1859, o imperador D. Pedro II do Brasil contratou um grupo de virtuosos europeus para tocar no palácio. Em 8 de junho de 1859, os violinistas holandeses André e Ludwig Gravestein, o trompetista italiano Cavalli, o clarinetista italiano Cavallini e Reichert chegaram ao Rio de Janeiro. A primeira apresentação foi no Teatro Lírico Fluminense. Logo Reichert tornou-se a primeira flauta do Teatro Provisório. Em 3 de julho do mesmo ano, ganhou o cargo de solista e realizou concertos em São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia e Pará. Ele teve um grande número de discípulos notáveis, entre eles Manoel Marcelino Vale e Duque Estrada Meyer.

Reichert Mathieu Andre Concerto 18640403No domingo 3 de abril de 1864, M. A. Reichert tocou no concerto vocal e instrumental em benefício dos Asilos dos órfãos de Santa Theresa e da Sociedade Belga de Beneficência nos salões do Club Fluminense no Rio de Janeiro.

No Rio, tornou-se amigo de Joaquim Antônio da Silva Callado Jr., o grande flautista brasileiro da época. Reichert provocou grande interesse em torno do seu instrumento, a flauta, em todo Rio. Não era só um tocador e compositor esplêndido, mas ele foi um dos apresentadores do sistema Boëhm da flauta transversal moderna, abrindo novas possibilidades para o instrumento. O sistema, criado pelo alemão Theobald Boëhm, sofreu forte oposição dos adeptos da antiga flauta de madeira com um número variável de chaves.

Reichert ficou interessado e, finalmente, apaixonado pela música dos chorões carioca. Suas várias composições, especialmente sua polca "La Coquette", são evidências da assimilação da maneira brasileira de jogar. Esta polca foi levada ao repertório choro daqueles tempos sob o título de "As Faceiras", sendo tocada, segundo Batista Siqueira, por todas as bandas de música do Rio de Janeiro. O "Divino" Reichert, como a ele se refere Pedro de Assis, em seu Manual do Flautista, era considerado o maior flautista do mundo. O compositor Carlos Gomes lhe dedicou um lindíssimo solo que integra a ópera Joanna de Flandres. Reichert chegou a viajar por vários estados brasileiros. Era muito admirado.

Reichert Mathieu Andre 4 oeuvres

Reichert, de espírito boêmio desde a juventude, teve decadência artística após um período de glória - como virtuose da flauta, compositor e mesmo professor - passando seus últimos anos na miséria, recolhido à Santa Casa de Misericórdia, falecendo a 15 de março de 1880. Oito dias depois morreu o outro grande flautista Callado, na mesma epidemia meningoencefalite devastando o Rio no momento. Reichert foi enterrado no Cemitério de São João Batista, na cidade de Rio de Janeiro.

A edição de algumas de suas composições pela Schott, de Mayence, lhe deram alguns recursos em seu triste final de vida. Sua obra foi sendo esquecida e para encontrar as partituras de muitas de suas composições, a flautista Odette Ernest Dias fez pesquisas na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro e, especialmente, na França e Bégica. Recolheu um precioso material, do qual selecionou oito belíssimas composições, que nos remetem a música do século XIX, na singeleza e ternura para flauta e que, se não fosse esse belo trabalho de pesquisa musical, continuaria ignorado.

Reichert Mathieu Andre Afinidades BrasileirasLP editado em 1985: M. A. Reichert – Afinidades Brasileiras: Odette Ernest Dias (flauta) & Elza Kazuko Gushikem (piano)​
1. Souvenir du Para – Andante elégiaque – Opus 10
“Souvenir”. Saudade. Nostalgia das águas escuras do Amazonas e das paisagens desse Brasil que Reichert palmilhou de Norte a Sul, encantando a todos com a sua “flauta mágica”.

2. Tarantelle – Étude de salon – Opus 3
Aqui Reichert voltou a ser internacional, nesta peça de endiabrado ritmo napolitano. Peça de grande brilho, que faz jus à fama de virtuoso do autor.

3. Rêverie – Opus 17
Novamente a melancolia, o sonho, a saudade, nesta peça dedicada ao seu professor Demeur Charton, outro amante do Brasil.

4. La coquette (A faceira) – Polka de salon – Opus 4
Aqui Reichert declara abertamente seu brasileirismo. O título já vem traduzido. Essa mesma “faceira” aparece copiada à mão nos cadernos dos chorões do início deste século, o que mostra como ela se tornou popular.

5. Martha – Petit morceau de salon – Opus 18
Última obra de Reichert, inspirada num tema da ópera de Flotow, que, curiosamente, na hora da variação, se transforma em um quase … “chorinho”, onde tomamos a liberdade de introduzir o violão brasileiro de Jaime Ernest Dias, … pequena licença musical.

6. Romance sans paroles – Opus 11
No estilo da época, tão expressivo em Mendelssohn, essa “romança” adquire, aqui, uma singeleza toda modinheira.

7. La sensitive – Petite polka de salon – Opus 8
Continuando a tradição dos compositores do séc. XVIII, como Couperin e Rameau, Reichert pinta aqui um retrato musical. “A Sensitiva” mostra bem o que aconteceu à polka européia ao contato com o ritmo brasileiro. Ela aderiu à síncope, ao balanço e à flexibilidade do lundu e do batuque, exemplo maravilhoso de síncope musical.

8. Souvenir de Bahia – Andante pastorale – Opus 12
Aqui parece que Reichert trouxe lembranças mais alegres dessa viagem. A tonalidade do mi Maior nos leva às águas azuis e verdes do mar baiano e ao dengue do seu povo colorido.

Afinidades Brasileiras – 1985
Odette Ernest Dias (flauta) & Elza Kazuko Gushikem (piano)
Faixa 5: Jaime Ernest Dias (violão)

Outro repertório conhecido :
- Flauta e piano:

  • "Fantasía Melancólica" op.1;
  • "L'Illusion" op. 7.

- Métodos - Estudos:

  • "Exercicios diarios", op 5.
  • "Seis estudos", op. 6

Fontes: