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Migração da família Truyts para Jacareí (SP)

A partir do terço do século XIX – com o fim da escravidão – o Brasil e em especial a Província de São Paulo, atraiu ativamente na Europa pessoas para a imigração. Foram criados canais de comunicação e mandando agentes além do oceano para oferecer oportunidades de trabalho e uma vida promissora aos potenciais migrantes.

Essa propaganda chegou até a cidade Heist-op-den-Berg, na província de Antuérpia, na Bélgica, onde viveu a família Truyts. Eram camponeses. Decidiram para migrar ao Brasil e embarcaram no início do mês de setembro de 1890, no porto de Antuérpia, no vapor Ohio.

Eram 7 pessoas, o patriarca Romanus Truyts com 48 anos, a sua esposa Joanna Regina Geens, com 46, e seus cinco filhos Maria Anna Paulina, 21, Franciscus, 19, Maria Philomena, 14, Maria Ludovica, 10, e Amandus, 7 anos. Vieram ao Brasil em busca da oportunidade de uma vida promissora.

Vapor Ohio no Porto de Antuérpia

A viagem pelo Brasil

Norddeutscher LloydO vapor Ohio, com capacidade de 84 passageiros na primeira e 717 na terceira classe, pertencente a empresa alemã North German Lloyd of Bremen. A travessia ao Brasil teve uma duração de aproximadamente 40 dias de navegação.

Os emigrantes recebiam a recomendação de terem cuidado com a própria bagagem de mão. Enquanto os pertences colocados no bagageiro do navio, restava só esperar que não se realizassem furtos nas várias passagens de mão dos pacotes, furtos que eram de fato frequentes. O pó de carvão, usado como combustível pelo barco à vapor, criava um tipo de névoa que se formava ao redor do navio e fazia que os emigrantes ficassem pretos e com o calor todos suados faziam escorrer gotas brancas na pele preta.

O pernoitamento a bordo na terceira classe, acontecia nos dormitórios, salões que poderiam conter até algumas centenas de pessoas, um verdadeiro caos, permanentemente sujas, úmidas, infestadas de germes, bactérias e parasitas, impregnados de um fedor pelo qual os médicos de bordo cunharam o neologismo “fedor de emigrante”. Os dormitórios eram divididos por sexo: até certa idade os meninos podiam ficar com as mães naquele local reservado para mulheres. As refeições vinham servidas através de formação de um grupo de seis pessoas, das quais uma retirava a comida também para os outros e tinha o dever de distribuí-lo segundo critérios de igualdade.

No dia 22 de outubro de 1890, a família Truyts chegou no porto do Rio de Janeiro e foram encaminhados em pequenos barcos para a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores. Lá, os migrantes receberam assistência médica, fizeram refeições, tomaram banho, a seguir alojando-se, e ali permaneceram por 13 dias, até tomar o rumo da nova vida. Contratadores de fazendas e representantes de núcleos coloniais vinham à Hospedaria e forneciam meios para a locomoção das pessoas até o assentamento final.

Passados os 13 dias na Hospedaria, em 04 de novembro de 1890, após confirmarem o destino final que era Jacareí, no Vale do Paraíba, Estado de São Paulo, foram liberados para a viagem através da Rede Ferroviária Federal onde seriam recepcionados pelos representantes do Núcleo Colonial Boa Vista.

Estação de Jacareí em 1902

O Núcleo Colonial Boa Vista

Esse núcleo colonial foi estabelecido em terras da Fazenda Boa Vista, adquirida pelo Governo Geral ao Major Vitoriano Pereira de Barros a 18 de setembro de 1888. Possuía 91 lotes rurais, cada um com uma área média de 118.892 m² com valor médio por m² de $ 1,25 réis, com uma população de cerca de 455 habitantes. A grande maioria dos colonos já estavam com seus lotes quitados e devido a este fato, em pouco tempo a colônia foi emancipada.

Era localizada a cerca de 7 km do centro de Jacareí, próximo a Rede Ferroviária Federal – Rio de Janeiro a São Paulo.

O registro de entrada da família TRUYTS foi lavrado e inscrito no 014.94 Livro 47 nas folhas 60v, 61 ,61v e 62.

Dois tipos de imigrantes se dirigiram para a Província da São Paulo, no final do século XIX: o espontâneo, que vinha por conta própria e o introduzido pelo Governo Geral ou Provincial ou por qualquer outro introdutor. De forma geral, o imigrante espontâneo destinava-se à ocupação das pequenas propriedades dos núcleos coloniais, enquanto que o segundo tipo ia, quase sempre, para a lavoura de cafeeira das grandes fazendas. Romanus Truyts foi um imigrante espontâneo.

Os lotes dos núcleos oficiais eram oferecidos à venda para colonos de qualquer origem, desde que provassem ser aptos para a lavoura, mas visavam principalmente atrair lavradores estrangeiros, que deveriam introduzir novos produtos agrícolas com formas diferenciadas de cultivo, visando complementar a economia, nas áreas em que atuassem.

Planta do Núcleo Colonial Boa Vista – Jacareí

A maioria dos imigrantes assentados nos Núcleos Coloniais no Estado de São Paulo localizados no Vale do Paraíba dedicava-se à agricultura de subsistência, seja como pequenos proprietários vendendo seus eventuais excedentes nos diversos e pequenos centros urbanos.

Apesar das emancipações, os colonos enfrentaram tempos instáveis. Em novembro de 1891, os imigrantes enviaram um abaixo assinado ao Delegado de Terra e Colonização de São Paulo contando que estavam completamente abandonados, sem receber a quantia a que tinham direito até que começassem a produzir e sem créditos junto aos comerciantes da cidade. Alguns dos signatários não constam dos registros de lotes, indicando que podem ter abandonado a colônia.

A vida da família Truyts no Brasil
Truyts Amandus
Amandus Truyts

Como agricultores que eram, os Truyts iniciaram no lote que foi adquirido, a policultura de produtos para a sua subsistência e o excedente era destinado ao abastecimento da cidade de Jacareí.

Após 2 anos da chegada dos Truyts em Jacareí, em 1892, a produção agrícola total do Núcleo Colonial Boa Vista já era a seguinte:

  • Arroz – 20.000 litros
  • Batata inglesa – 25.000 litros
  • Café – 1.000 arrobas
  • Feijão – 30.000 litros
  • Milho – 100.000 litros

Romanus Truyts introduziu novas técnicas de agricultura como também deu início a agroindústria da época. Iniciou a fabricação de farinhas de milho e mandioca utilizando a força mecânica através de roda d’água, a qual servia além do moinho, para outras atividades como força motriz. Esta roda d’água foi projetada e construída por Romanus, que a desenhou no solo.

Para dar escoamento da produção das farinhas e outros produtos de safra, adquiriu no Mercado Municipal de São José dos Campos (cidade vizinha a Jacareí com melhor caminho), uma banca para o comércio da produção. O deslocamento era feito através de carros puxados por bois, construídos por Romanus.

Romanus já constava da relação de agricultores e lavradores de Jacareí, publicados pelo Estado de São Paulo.

Um ano após a aquisição do lote por Romanus, seu filho Franciscus adquiriu outro lote de terra – nº 72 com 113.580 m² – para estabelecer-se separadamente de seu pai.

Truyts Francisco Título Núcleo Colonial

A Família Truyts juntamente com outros imigrantes, acabaram implantando em Jacareí, uma política de desenvolvimento e empreendedorismo, com indústrias e pequenos comércios, estimulados pela presença do ramal ferroviário na cidade e sua excelente localização próximo a Capital Paulista.

Em 07 de novembro de 1906, Joanna Regina Geens, esposa de Romanus, faleceu em virtude de uma pneumonia, sendo sepultada em 08 de novembro de 1906 no Cemitério Municipal de Jacareí – Campo da Saudade, na Quadra 14, túmulo nº 14274, deixando esposo e 6 filhos: Mathildes, Paulínia, Franciscus, Philomena, Ludovica e Amandus.

Romanus ficou viúvo aos 68 anos e um ano após a morte da sua esposa decidiu retornar a Bélgica. Permaneceu pouco tempo na cidade de Heist-op-den-Berg, pois logo se mudou para residir com a filha mais velha Mathilde, em Hallaar no Boonmarkt. Mathilde foi a única filha que não emigrou para o Brasil. Pouco mais tarde, Romanus retornou a Heist-op- den-Berg para viver em uma residência de frente ao Hallaarse Steenweg.

Romanus, agora com 69 anos, manteve contato com seu irmão Carolus e com os dois filhos da falecida irmã Rosalie; Gust De Wever com sua família e Jef Amandus De Wever; alias den Titte, ainda solteiro. Inspirado por seu sobrinho o Titte que era caçador, Romanus logo se tornou um caçador famoso.

Romanus faleceu, no dia 21 de março de 1924 as 11:00 hs. da manhã, em Antuérpia, no hospital de St. Elisabeth. Os registros do hospital mencionam que ele morreu de marasmo... ou de idade mesmo. Foi sepultado no cemitério Schoonselhof em Antuérpia.

Truyts Romanus Overlijdensakte

Os descendentes de Romanus Truyts

Os moradores do núcleo colonial viviam em comunidade e devido a distância da cidade de Jacareí, seu lazer era na própria colônia. Festas da Capela Senhor Bom Jesus que construíram no local.

As filhas de Romanus Truyts, casaram-se e foram cuidar de suas famílias.

Truyts Franciscus
Franciscus Truyts

Franciscus Truyts (◦13/04/1872), filho mais velho de Romanus, casou-se com Eulália Ricardina Andrade (◦14/12/1904), tornou-se industrial fundando a Torrefação Truyts, também em meados da primeira metade do século XX. Foi homenageado com a Rua Francisco Truyts em Jacareí.

Café Truyts transporteCafé Truyts 500g

O filho caçula de Romanus, Amandus Truyts (◦25/11/1883 +13/12/1969), casou-se com Maria José da Conceição (◦1894 +21/03/1967) e teve dois filhos, Deniz Truyts e Ernesto Truyts. Continuou os negócios do pai na colônia, vindo a residir no centro da cidade de Jacareí, a rua Barão de Jacareí, em meados da primeira metade do século XX.

Ernesto Truyts (◦12/04/1910 +09/07/1973), filho de Amandus Truyts, casou-se com Margarida Garcia Domingues (◦12/12/1914 +04/09/1993), filha de imigrantes espanhóis, também do Núcleo Colonial Boa Vista. Teve 13 filhos: Ernesto, Amands, Vicente, Mercedes, Manoel, Elaine, Irene, Clarisse, Ari, Israel, Nilde Maria, Eliana e Josué. Trabalhou até se aposentar na Central do Brasil – Rede Ferroviária Federal e em sua homenagem, teve também uma via pública denominada com o seu nome.

Manoel Truyts (◦30/11/1938 +14/06/1981), filho de Ernesto Truyts, também foi homenageado com a denominação de uma via pública com o seu nome.

Os descendentes de Romanus Truyts contribuíram e contribuem para o progresso da cidade de Jacareí como engenheiros, médicos, administradores, comerciantes, advogados, políticos, jogador de futebol profissional e outros. É uma família tradicional da região do Vale do Paraíba.

Fontes e fotos

Marc Storms

Baseado no texto elaborado por Suzana Truyts em 17/04/2018 e no artigo de Dirk De Wever, “Een Heistse Truyts” (De Swanekoerier, maart-april 2018, p. 35 – 39).

Fotos dadas por Suzana Truyts.

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